Venho de uma família em que, por muitos anos, fim de semana era sinónimo de descanso, passeio, comer em bons restaurantes, ou simplesmente na tasca da esquina mais próxima. Essencialmente, eram dias passados em família.

Recordo, também que, em miúda, havia menos shoppings do que atualmente, e que na sua grande maioria, não abriam aos domingos e os que estavam abertos, fechavam portas pelas 13h00, assim como os super e hipermercados. Contudo, em 2010, um parecer da Procuradoria Geral da República é homologado e é concedida a abertura aos espaços comerciais com mais de 1000 m².

Cerca de 9 anos depois surge a polémica pelas palavras do Bispo do Porto, acompanhada de uma petição pública para o encerramento dos centros comerciais ao Domingo.

Atualmente as minhas dinâmicas familiares são bem diferentes daquelas que vivi em criança. Não, trabalho ao domingo, mas o meu marido trabalha, praticamente, todos os domingos o que deixa de fora toda e qualquer possibilidade de um fim de semana em família.

O meu marido não trabalha num shopping ou numa grande superfície comercial mas trabalha ao domingo para que famílias, como a que ele deixa em casa, possam desfrutar de experiências gastronómicas que, quiçá ficarão na memória dessas famílias por muitos e longos anos, tal como acontecia na minha infância – afinal, já nessa altura também os restaurantes abriam ao domingo.

Na petição pode ler-se que que aos domingos são milhares os que se dirigem aos centros comerciais para “passear” e que ao encerrar os centros comerciais, isso iria potenciar o conceito de qualidade de vida e o “tempo de qualidade em família”.

Bom, lamentavelmente os meus fins de semana  continuariam a ser iguais mesmo que a lei mudasse e, honestamente a sensação que tenho é que se pretende iniciar uma caça às bruxas quando apontamos o dedo aos centros comerciais como os inimigos do “tempo de qualidade em família”.

Na verdade, ninguém é obrigado a ir ao centro comercial ao domingo. Digamos que não existe uma lei que obrigue alguém a dirigir-se aos shoppings para “passear”, até porque existem muitos outros locais para o fazer.

No entanto e, se ainda assim, as famílias escolhem o centro comercial para passar uma boa tarde em família, então só me resta considerar que terá sido uma ótima escolha, pois para mim importa muito mais o “como” do que o “onde”.

Ainda sobre os domingos, há ainda que considerar que muitas pessoas podem, inclusive, preferir trabalhar ao domingo para que possam ter uma folga semanal e fazer tudo aquilo que não poderiam fazer se esta petição se transformar em lei, como por exemplo, ir às compras e, claro está, passar tempo em família.

É totalmente legitimo quando me dizem que “lá fora, no estrangeiro” muitos dos espaços comerciais fecham ao domingo. Curiosamente, na grande maioria dos casos, esses espaços também são aqueles que, independentemente do dia da semana, fecham portas bastante cedo e, maioritariamente falamos de países cujas temperaturas são bastantes baixas no inverno e onde existe uma cultura da porta para dentro, bem diferente da nossa realidade.

Mas voltando aos exemplos nacionais, sou capaz de enumerar, de repente, meia dúzia de trabalhadores que ocupam os seus postos ao domingo:

  • Os funcionários das gasolineiras pois para ir passear é preciso combustível, independentemente de ser em viatura própria ou transporte público.
  • Os cozinheiros e restante staff de um restaurante, porque durante o passeio pode dar a fome.
  • Policias, bombeiros, equipas de salvamento e urgências hospitalares, pois para que uns possam passear e ter tempo em família, outros terão que garantir que tudo corre bem.

 

E poderia continuar por aí fora num roll de profissões que, pelas suas características ou funções têm que estar operacionais aos domingos, feriados e todos os outros dias da semana.

Assim, parece-me que a culpa não é dos shoppings e nem tão pouco dos domingos. Há que olhar para dentro e à nossa volta e perceber de que valores somos feitos e de que princípios nos banhamos.

Não basta dizer que são os shoppings que nos “roubam” o tempo “de qualidade” passado em família, porque quem não reconhece esses valores como fundamentais não os vai praticar nem ao domingo e nem em qualquer outro dia da semana.

 

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