No rescaldo do Dia da Mãe, este é um tema que me é particularmente sensível, e a verdade é que ainda é considerado por muitos, incluindo os próprios pais (mãe e pai), um tabu.

Na verdade, tudo começa com a informação de uma gravidez. Subitamente as mulheres deixam de fazer parte de determinados projetos profissionais, pois em breve ficarão ausentes por um longo período. Mas esta informação nem sempre é clara por parte dos empregadores, ficando um misto no ar que varia entre a indiferença pelas necessidades individuais da grávida e uma espécie de desprezo por passar a ter outras responsabilidades fora do trabalho como as consultas pré-natais ou a necessidade de fazer mais pausas durante o dia.

Com o crescimento da barriga vêm também os comentários sobre aquele estado “de graça” que, não fosse o amor incondicional que se sente por aquele ser que cresce dentro de nós, “de graça” não teria nada. As pernas incham, o cansaço é cada vez mais visível, e a barriga cresce na mesma velocidade que a nossa paciência diminui.

Quanto mais o tempo avança, mais se começa a desenhar no ar a licença de maternidade e a possibilidade da grávida se afastar, em breve, do trabalho.

Não sei porquê, mas a grande maioria das pessoas acha que as mulheres vão parir entre um atender de chamadas e o envio de um email e por isso ficam sempre muito surpreendidos quando a mulher informa que irá meter baixa para descansar até ao nascimento do bebé.

Sim, é preciso descansar antes do bebé nascer. Nas últimas semanas de gravidez a privação do sono já dá sinais assim como a dificuldade nas deslocações e até nas funções mais básicas como o respirar ou o controlo da bexiga.

Mas ainda assim, com todos estes exemplos, as mulheres continuam, para a maioria das pessoas, a ir de “férias”.

Passados os meses da licença, a mulher regressa ao trabalho quase sempre mais cansada do que no dia em que se ausentou e, na maioria dos casos o regresso é acompanhado  daquele friozinho na barriga como se fosse o primeiro dia num novo emprego, com a exceção de já conhecer todas as caras. Mas, inevitavelmente tudo está diferente.

A mulher está, agora, menos disponível para trabalho fora de horas pois quase sempre recaem sobre si as responsabilidades sobre o seu bebé – sempre que há uma febre, sempre que há uma urgência na creche ou na ama – e essa será a realidade que nos acompanhará durante grande parte da nossa vida de mãe.

Posto isto, na grande maioria dos casos, continuamos a ser penalizadas profissionalmente quer seja nos salários com os argumentos da disponibilidade vs produtividade quer seja pela necessidade inadiável de apoio aos filhos que nos obriga a um maior número de ausências inesperadas.

Neste último espeto, muito pouco se fala do papel do pai.

Curiosamente, este fim de semana revi o filme Kramer contra Kramer e sem me querer obviamente centrar ao nível da (polémica) ausência da mãe e da questão legal envolvente, constatei que mesmo passados mais de 30 anos sobre o filme, a realidade continua a ser muito semelhante.

Continua a existir uma tendência natural para ver a mãe como única cuidadora em detrimento do pai e, nos casos em que os homens se assumem como principais cuidadores dos seus filhos, sofrem igualmente, a nível profissional, as mesmas retaliações que as mulheres.

Assim, com base nesta premissa e fazendo uma breve reflexão, pode-se concluir que, apesar de todo um discurso social e político de apoio á natalidade e de políticas de apoio á família, a nossa sociedade e em particular o mercado de trabalho não sabe lidar com os pais e coloca-os, salvo honrosas exceções, no “saco dos indisponíveis”.

Contudo esta falta de disponibilidade não será, em si própria, o resultado de um jogo que aceitámos jogar?

Somos o país que mais horas de trabalho semanal acumula e apesar disso, a nível europeu somos o povo que apresenta menores índices de produtividade.

Trabalhamos demasiadas horas, porque assumimos que ficar até mais tarde no trabalho faz de nós mais produtivos. No entanto, nesta dinâmica estamos tão somente a boicotar a nossa própria qualidade de vida e a permitir que a classe empregadora exerça sobre nós um tipo de escravatura moderna e subtil sobre o pretexto da utilidade do nosso trabalho ainda que para isso fique algo para trás.

Entretanto, temos pouca consciência crítica desta realidade, mas temos contudo a noção da nossa falta de tempo e iniciamos uma batalha inglória para “comprar” qualidade de vida, da qual saímos sempre vencidos.

Ora vejamos, queixamo-nos da nossa falta de tempo para a família porque as tarefas domésticas nos “roubam” demasiado tempo e contraímos empréstimos para adquirir, por exemplo, eletrodomésticos ou robótica especializada para nos auxiliar nessas tarefas. O resultado – trabalhar mais para receber mais e fazer face às novas despesas.

Queixamo-nos que passamos pouco tempo com os nossos filhos mas na hora de escolher uma creche ou escola, invariavelmente optamos por aquela que tem o horário mais alargado para que não prejudiquemos as (já exageradas) horas de trabalho e quando tal não é possível contamos sempre com a boa vontade de uma avó, de uma vizinha ou de uma amiga para ir buscar as crianças e ficar com elas até chegarmos. Quando não existe esta rede de suporte pagamos a ATL’s ou colocamos os miúdos em atividades até ao início da noite, desejavelmente, todos os dias da semana, as quais temos que pagar e por isso nos obriga a trabalhar mais, para novamente, fazer face às despesas.

Temos assim crianças quase tão cansadas como os pais que, após um dia de escola têm ainda 1001 atividades de ocupação do tempo livre, que obviamente de “livre” têm muito pouco.

É caso para dizer que, paralelamente a todos os sindicatos existentes é urgente criar, como diz o prof. Eduardo Sá por quem tenho uma tremenda admiração, um “Sindicato dos Pais” onde estes possam ganhar poder negocial para fazer face a uma visão capitalista do tempo em família.

 

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