Aproxima-se o Dia Mundial da Criança e, este ano, quis o calendário que fosse celebrado a um sábado.

Neste contexto, são inúmeras as empresas que começam já a partilhar as suas iniciativas para os filhos dos funcionários.

Desde piqueniques, insufláveis e pinturas faciais até às festas temáticas, são inúmeras as atividades que as empresas vão divulgando nas suas redes de comunicação interna.

O objetivo, dizem os diretores, é estreitar relações entre a vida profissional e familiar, proporcionando momentos de lazer aos funcionários, junto dos seus filhos.

Adicionalmente, tais iniciativas defendem, paralelamente, contribuir para a construção de relações mais humanizadas e informais, em ambiente profissional.

Pessoalmente, considero que faz parte do universo de qualquer criança conhecer o local de trabalho dos pais bem como as pessoas que os “roubam” durante a maior parte do dia.

Não obstante, e considerando que de facto, é importante estabelecer relações mais humanizadas em ambiente profissional, questiono este tipo de iniciativas que envolvem a família do funcionário, nomeadamente os filhos.

De uma forma geral, considero que uma atividade organizada por uma entidade empregadora é sempre uma atividade profissional, independentemente do nome que lhe atribuam: O que quer isto dizer? Que por muito que se queira criar um ambiente descontraído, a sensação que todos têm é a de que estão constantemente a ser observados e analisados do ponto de vista da sua capacidade profissional.

E, na verdade, talvez estejam mesmo, uma vez que não é invulgar, neste tipo de eventos, ver o fotógrafo “de serviço” na procura da imagem perfeita, de forma a reforçar, através de posts nas redes sociais, as dinâmicas de responsabilidade social da empresa.

Por esta data, assim como nos jantares de Natal e, de forma súbita, os diretores e gestores das empresas passam a adorar “criancinhas” e dedicam-se a proporcionar-lhes atividades e a fazer embrulhos com os logótipos da empresa, adotando discursos defensores da qualidade do tempo passado em família. No entanto, estes são na sua maioria, os mesmos gestores que impõe prazos absurdamente curtos e a necessidade de “levar trabalho para casa”.

São os mesmos que reviram os olhos sempre que uma mãe ou um pai liga, de manhã, a avisar que o miúdo tem febre e que não poderá ir trabalhar ou que perguntam a uma mãe, com um filho doente, se a criança não tem um pai ou avós.

São os mesmos que perguntam, durante uma entrevista de emprego se aquela mulher que têm diante de si, está grávida ou que questionam a capacidade profissional de uma mulher acabada de regressar da sua licença de maternidade. São, também e por norma, os mesmos que consideram que um recém pai não pode andar cansado, afinal não é ele que amamenta durante a noite.

A questão é que reiteradamente se esquece o fundamental – as crianças. E as mesmas que durante praticamente todo o ano são “invisíveis” aos olhos dos diretores e gestores, passam, por um par de dias, a fazer parte de um discurso suportado, unicamente, pela necessidade da visibilidade social da empresa.

É certo que pais e filhos precisam de manter e reforçar laços em contextos lúdicos, no entanto, considero que o devem fazer fora do contexto profissional dos pais. Pais e filhos, geram sinergias muito próprias onde o papel de pai ou mãe não deverá ser limitado ou influenciado pelo seu ambiente profissional.

Felizmente já se observam, no panorama empresarial, alguns bons exemplos no que diz respeito à questão da conjugação das dinâmicas profissionais e familiares, que não passam obrigatoriamente por festas ou eventos em ambiente profissional.

Neste sentido, algumas empresas permitem a reorganização do tempo de trabalho, através da aprovação de pedidos de flexibilização ou redução de horários ou até mesmo através do teletrabalho. Outras, optam pela extensão das licenças de parentalidade, suportando os custos adicionais. Nestas empresas é também comum conceder-se períodos de assistência aos filhos (ou outros familiares), para além dos estabelecidos por lei.

Paralelamente, assiste-se a uma maior preocupação com o bem-estar do profissional e seu agregado, através de apoios financeiros, quer no acesso a serviços de saúde e bem-estar, como na procura em estabelecer protocolos nas áreas da educação e formação, aos descendentes. E, não muito comum na realidade portuguesa, mas começam também já a surgir os primeiros casos de empresas que disponibilizam serviços de creche para os funcionários que trabalham por turnos.

No entanto, a verdade é que ainda há um longo caminho a percorrer para um equilíbrio na relação entre a esfera familiar e profissional sendo que o objetivo será, sempre, o de trazer à luz da discussão o mútuo entendimento.

Com a aproximação do dia da Criança lança-se a necessidade de reflexão sobre o tema e, ainda que para muitos pais não seja possível uma saudável e completa gestão das esferas familiar e profissional, vamos, contudo lembrar-nos que “…o melhor do mundo são as crianças.” (Fernando Pessoa, poema Liberdade).

 

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