Esta semana, na minha página, escrevi sobre um tema que, como se costuma dizer, dá pano para mangas. Abordei a questão daquilo que exigimos aos nossos filhos, mas que, somos os primeiros a não cumprir.

Particularmente, abordei a questão dos gritos: O “falar alto”, lá em casa, é algo que tento combater a todo o custo. Exijo, portanto, aos meus filhos que falem baixo e explico-lhes que não é necessário gritar e, nem tão pouco, os ouço melhor quando gritam, pelo contrário.

Mas e eu? Será que lhes dou esse exemplo?

Lá em casa, à exceção do pai, que é a calma em formato humano, todos gritam, mas a mãe é de facto a que mais grita.

Grita quando se irrita, grita quando não obedecem às suas ordens e mesmo quando faz um esforço para não gritar, quando se apercebe, já está a “falar alto” que, convenhamos, é quase a mesma coisa.

A verdade é que julgamos, ao contrário do que passamos aos nossos filhos, que se gritarmos, eles nos ouvirão melhor. Pura ilusão. Afinal, o que faríamos se um desconhecido gritasse connosco? E se fosse uma pessoa de quem gostamos muito?

Na verdade, aquilo que exigimos aos nossos filhos é, na sua grande maioria, desproporcional àquilo que lhes apresentamos como exemplo.

Apercebo-me que continuamos demasiado presos ao chavão “faz o que te digo e não faças o que eu faço”.  E, se por um lado, também nós, somos “filhos” deste chavão, por outro, temos o dever de impor, a nós próprios, essa mudança de paradigma.

Não se trata, contudo, de nos transformarmos em pais perfeitos porque, empiricamente sabemos que a perfeição só existe nos contos de fadas, mas trata-se de ganharmos coerência aos olhos dos nossos filhos e o respeito que tanto desejamos. A verdade é que quando temos filhos, e quando assumimos, de forma consciente, amar e educar aquele ser em desenvolvimento físico, psíquico, emocional e social, assumimos também a responsabilidade de o formar enquanto cidadão.

Quando falo em cidadão, não me refiro obviamente ao “bom samaritano”. Refiro-me ao aprender o respeito por si e pelos outros, do ponto de vista físico, emocional e social. Aprender que a nossa liberdade termina quando começa a do outro. Aprender que todos ocupamos um espaço, dentro do mesmo espaço e que o respeito e a empatia são a base de qualquer relação.

A questão é que, quase sempre, temos imensas dúvidas acerca de como o fazer. O que não quer dizer que sejamos maus pais. Significa, sim, que somos seres errantes e que não cabem, em nós, todas as fórmulas mágicas para “bem educar” uma criança. E destas dúvidas, nasce a culpa.

A culpa que nos consome e nos retira qualquer réstia de discernimento. A culpa que nos faz acreditar que estamos a fazer tudo errado e que estamos a falhar redondamente na nossa função de educar, porque a culpa não nos deixa enxergar, de forma clara que, amar e educar andam sempre de mãos dadas com a imposição de limites e regras.

Na verdade, exigimos demasiado de nós, enquanto pais e, se por um lado, os nossos pais tinham uma capacidade inenarrável em arrumar a culpa com um “faz o que eu te digo e não faças o que eu faço”, nós, por outro lado, ficamos demasiado tempo “presos” nos nossos erros e esquecemos que, todo os minutos que passamos a tentar encontrar justificações para eles, perdemos tempo de qualidade com os nossos filhos.

Não quer dizer, no entanto, que não devemos refletir ou, até mesmo, nos policiar para evitar situações que criam tensões internas ou externas, mas por vezes, temos que ter a consciência que um pedido de desculpa e um abraço é, tão ou mais fundamental para os nossos filhos do que a ver a mãe ou o pai consumidos por uma culpa. Sentimento esse, que, tantas vezes, os leva a cometer excessos, a título compensatório, dos quais os filhos não são responsáveis e, pelos quais, irão pagar uma pesada fatura.

Então, se por um lado temos que ser coerentes, aos olhos dos nossos filhos, e ser o exemplo daquilo que lhes exigimos, por outro lado, há que reconhecer que falhar é humano e, nesse aspeto, a falha pode acontecer de ambos os lados.

Apesar disso, ser coerente é reconhecer que, se exigimos aos nossos filhos que sejam pontuais, deveremos fazer um esforço para chegar a horas à escola, à festa do amigo ou ao treino de futebol. Se exigimos que os nossos filhos sejam arrumados, deveremos fazer um esforço para apanhar a nossa roupa do chão ou guardar os nossos objetos nos locais próprios. Se exigimos que os nossos filhos não digam palavrões, deveremos evitá-los, na sua presença. E, claro está, se pretendemos que os nossos filhos não gritem, devemos evitar gritar com eles ou na sua presença.

No entanto, se por vezes falharmos ou se os nossos filhos falharem, isso não significa que estamos condenados na nossa função de educadores.

A forma como lidamos com essas falhas é que poderá condicionar o comportamento dos nossos filhos e, principalmente a forma como abordam as suas falhas e as dos outros.

Quero com isto dizer que devemos sim exigir-lhes, de acordo com o seu estádio de desenvolvimento, determinadas regras, tarefas e padrões de comportamento, mas também lhes devemos transmitir o conceito de flexibilidade perante os seus erros e os dos outros. Porque afinal, o respeito e a tolerância também andam de mãos dadas, tal como a educação e o amor.

Ah e, em relação aos gritos, fiz um acordo com o meu filho. Cada vez que a mãe gritar, ele vai dizer, baixinho, que gritar é feio. Porque às vezes um “abraço” faz mais “barulho” que uma multidão aos gritos.

 

PROCURAS EXPLICADOR? CLICA NA IMAGEM EM BAIXO!