Confesso que tenho alguma dificuldade em entender o que se pretende dizer ou em que consiste a “educação sem género”. Ou talvez até saiba, na medida em que, no início dos anos 90, já era educada dessa forma. Apenas não lhe era dado um nome e nem tão pouco era moda.

Em criança, não tenho grandes recordações de andar vestida de cor de rosa ou com grandes laços no cabelo. Não me lembro sequer de, pelo carnaval, me vestir de princesa ou dama antiga, ou andar com grandes vestidos rodados.

As recordações que tenho são as de ter usado a roupa do meu irmão que, entretanto, lhe tinha deixado de servir. Sim, usei a roupa do meu irmão, desde camisolas e t-shirts. Afinal era só roupa e estava em bom estado…

Lembro-me ainda de andar sempre de cabelo curto até aos meus 12 anos – dizia-se, na altura, que fortalecia o cabelo.

Toda a vida dividi o quarto com o meu irmão. A decoração era sóbria, em tons de azul com uns toques de amarelo. Nada de cor de rosa!

Tinha bonecas, mas também gostava de brincar com Legos e os tão famosos Playmobil.

Adorei ver o Jurássic Park e nunca gostei da Música no Coração (do filme, só retive a banda sonora).

Quando era miúda adorava ver o “Portugal Radical”. Surf, Skate e BTT eram os meus temas favoritos.

Os meus cadernos da escola eram um misto de autocolantes de Boys Band e imagens de desportos radicais retiradas das revistas da especialidade.

Tive todos os CD’s dos Backstreet Boys, com paixonetas platónicas por todos os vocalistas.

Tive uma bicicleta azul, maior do que eu.

Na rua, brincava ao polícia e ladrão e corria desalmadamente. Dentro de casa brincava aos pais e às mães. Era sempre a mãe e normalmente estava sempre a cozinhar, num qualquer projeto de fogão de brincar.

Tive uma infância feliz e diria até colorida, fugindo ao estereotipo do cor de rosa, por ser menina.

Agora que sou mãe, o quarto do meu filho é em tons de verde com muitas outras cores à mistura. Curiosamente não há azul. No quarto da minha filha predominam o bege e o verde.

A minha filha (ainda) não me pede laços nem fitas na cabeça. O meu filho tem t-shirts cor de rosa e usa-as regularmente.

O meu filho, em bebé, passou várias vezes por menina. A minha filha, ainda passa algumas vezes por menino. Nunca me importei. Quando se proporciona, esclareço que é uma menina. Com o meu filho também fiz o mesmo.

Se há coisa que me incomoda é entrar numa loja de criança e ver apenas duas manchas de cor. Azul e cor de rosa.

Gosto de cor. Gosto de ver uma criança colorida da cabeça aos pés. A infância tem cor. A infância não é apenas azul ou rosa.

Recentemente a Zippy, uma marca de roupa infantil 100% portuguesa, lançou a sua coleção cápsula “Happy”, intitulada de roupa sem género e que por isso, tanto dá para meninos como para meninas.

É uma linha de roupa bastante colorida, fazendo lembrar as cores do arco-íris.

Não tardaram as críticas e as acusações de que a marca se teria associado à ideologia de género e às causas LGBT devido não só à escolha das cores como também pelo nome da coleção uma vez que “Happy” poderá ser traduzido, do inglês, como “gay”.

Desde adjetivos como “vergonhoso”, às ameaças de boicote à marca, até à criação do hastags  #DeixemAsCriançasEmPaz, tudo foi usado para atacar a marca e a acusar de se ter associado a uma agenda ideológica e politica na qual são usadas as crianças como uma espécie de veículo de publicitação dos ideias LGBT.

As críticas foram tão severas que a Zippy, em comunicado, informou que não existe qualquer associação da marca a uma ideologia ou agenda política e que a sua intenção foi a criação de um estilo versátil, prático e funcional quer para as crianças como para os pais, nas hora de vestir os filhos.

Por outro lado, se há quem se indigne com a marca, também há que dê os parabéns à Zippy pela ousadia ou simplesmente pela funcionalidade das roupas unissexo.

Pessoalmente, e do que já vi da coleção, são roupas completamente normais e sim, muito coloridas!

Polémicas à parte e, enquanto mãe, de um casal, só penso na quantidade de euros que se poderá poupar com este tipo de coleções em que, quer rapazes, quer raparigas, poderão usar os mesmos modelos de roupa e sentir-se bem ao usá-las.

Recordo assim a minha infância em que, também eu, usei a roupa do meu irmão. Afinal os tempos assim o exigiam. Na altura, roupa de criança era bem mais cara. Não havia marcas de preço baixo e era necessário guardar a roupa de um filho para o outro, independentemente do género, pois haviam sempre umas quantas peças que podiam ser usadas por ambos. E, se pensarmos bem, ainda hoje isso acontece em grande parte das famílias portuguesas.

De toda a polémica associada a esta questão é, contudo, fundamental retirar o essencial.

Roupa será sempre roupa. Não importa a cor, a marca ou o preço.

O importante e fundamental está em quem a veste, nos seus valores e princípios e naquilo que recebe e dá à sociedade.

Por fim, mas não em último, muito mais importante do que educar uma criança com ou sem género é educá-la com e para o respeito – O respeito por si própria e pelos outros, nas suas características, opções e escolhas.

 

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