Vais de férias quantos meses?  Esta foi a pergunta que uma amiga fez, semanas antes da minha filha nascer. Na verdade, ela pretendia saber quantos meses iria estar de licença, porém a forma que usou para colocar a questão espelha a imagem que a sociedade ainda tem sobre a licença de maternidade.

Quando uma mulher está grávida, é habitual ouvirmos falar num “estado de graça” que, contudo, ninguém sabe no que consiste – Uns dizem que é carregar uma vida dentro do ventre, outros falam do amor incondicional e outros, ainda, afirmam que as mulheres ficam mais bonitas.

Posto isto, é habitual julgar que todas as mulheres vivem a sua gravidez de forma harmoniosa com as alterações físicas e hormonais. Na verdade, durante esta fase, pouco se fala do ganho de peso que condiciona as rotinas, das dores de costas pelo peso da barriga, do inchaço generalizado que condiciona grande parte dos movimentos, sem falar das alterações hormonais que colocam em causa o seu bem estar físico e psíquico da grávida e com quem ela convive.

Quando o bebé nasce, espera-se que algumas destas limitações cessem, contudo, a grande maioria delas não só se mantêm, como dão lugar a outro tipo de condicionantes das quais, igualmente pouco se fala.

Quer seja um parto uterino ou por cesariana, a maioria das mulheres fica inevitavelmente limitada nos seus movimentos, e até as faculdades básicas, como urinar, poderão ficar comprometidas pela dor. A par disto, e ainda sem sabermos bem o que esperam de nós, existe um ser que depende totalmente da nossa ação, e todos fazem questão de nos relembrar disso. Na verdade, os primeiros dias são de uma loucura de emoções e nervos à flor da pele, onde o bebé é, inegavelmente o centro de todas as atenções e pouca atenção é dada à recém mãe que, também ela, está a recuperar de um parto e precisa de apoio, não só físico, como emocional.

Desta dualidade de cuidados entre mãe e bebé, nascem as sensações de medo, na medida em que a “novidade” e a “mudança” causam, quase sempre sentimentos de ansiedade em relação àquele novo ser que, apesar de ter saído de dentro de nós, não fazemos qualquer ideia de como ele se comporta no mundo exterior. Sabemos, enquanto mães que a forma dos bebés se expressarem é através do choro e que, inclusive, afirmam os especialistas, existem choros diferente para a fome, frio, calor, necessidade de afeto, etc. Porém, na maioria das vezes, resta-nos ir avançando em todas estas hipóteses através de “tentativas e erros” que nos retiram a pouca sanidade mental que nos resta.

No fundo, durante os primeiros meses, qualquer mãe vive numa espécie de instinto de sobrevivência que alterna entre um constante estado de vigilância e a necessidade de repouso físico e mental. O cansaço pelas noites de sono interrompido, quer sejam para alimentar o bebé, como para “apenas” verificar se respira, passam a ser as rotinas noturnas das mães e, até aqui poderia estar tudo bem se, no dia seguinte, esta mesma mãe pudesse contar com a presença do pai para a render nestas honrosas tarefas.

Legalmente já é possível, entre o casal, decidir quem irá usufruir da licença parental, contudo, é ainda bastante frequente que seja a mãe a chamar a si essa responsabilidade quer seja por questões relacionadas com a amamentação e recuperação pós-parto, quer por questões financeiras relativas aos pagamentos totais ou parciais dos subsídios, mediante as modalidades escolhidas. Nos casos em que é a mãe a usufruir da licença, a lei prevê  que o pai esteja presente a 100% nas rotinas do bebé durante os seus primeiros dias de vida, pelo que findo este período, e quando não é possível a presença de uma avó ou outra figura de referência e apoio, a mãe passa a estar sozinha nesta função de cuidadora, dia e noite, na medida em que o pai terá que descansar ou verá a sua rotina profissional comprometida, com tudo o que isso poderá acarretar para o bem estar da família.

Assim, vemos mulheres completamente sozinhas e submersas nas rotinas do bebé, sem qualquer vida para além daquela que se impõe dentro das paredes de sua casa. As visitas das amigas passam a ser menos frequentes e as saídas passam a ser para ir ao supermercado num pé e regressar no outro, afinal o bebé é ainda muito pequeno para saídas sociais. Frequentemente, as mães acordam e se deitam com a mesma roupa, comem qualquer coisa enquanto o bebé dorme e tentam organizar a casa sempre que, este, dá tréguas na necessidade constante de atenção e presença. Os banhos passam a ser rápidos e lavar o cabelo passa a ser um luxo apenas quando o pai está em casa, não vá o bebe chorar e termos que sair da banheira com o cabelo em espuma.

O período da licença de maternidade é solitário e, atendendo às necessidades de uma mãe em recuperação, torna-se quase desumano pedir que um ser em fragilidade seja, ele próprio, o principal cuidador de um outro ser, também ele frágil. É por isso urgente repensar o período de licença inicial do pai, bem como o papel dos principais organismos sociais e da saúde, no apoio às mães e no cuidado aos seus bebés.

 

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